Da Baixa à Sé, da Sé à Alfama, de Alfama…

Depois de visitar o Convento do Carmo resolvemos seguir explorando o centro de Lisboa. Descemos para a Baixa, passando pelo Chiado. O Chiado é o que liga à Baixa ao Bairro Alto, e é uma região legal de explorar, com lojinhas descolex, um shoppingzinho que tem Sephora e Body Shop e Fnac (comprei minha câmera lá) e vários cafés gostosos. É no Chiado que fica o café A Brasileira, aquele que Fernando Pessoa costumava frequentar e onde fica sua estátua – é clichê, mas quem resiste a tirar uma foto batendo papo com Pessoa?

 

"Me conta, hoje ce tá mais Álvaro de Campos ou Ricardo Reis?"

"Me conta, hoje ce tá mais Álvaro de Campos ou Ricardo Reis?"

Bom, daí vocês desce, anda, se embrenha, faz os caminhos mais longos, e de repente pode chegar aos pés do elevador de Santa Justa, que é lindo e vive com uma fila gigante de turistas querendo passear nele. Eu fiquei feliz só em ver do lado de fora, valheu.

O elevadorzão liga lá em cima a aqui embaixo, mas eu fui à pé mesmo

O elevadorzão liga lá em cima a aqui embaixo, mas eu fui à pé mesmo

Daí você segue andando, e pode passar pela Rua Augusta, que é tão bacana quanto a nossa, mas de um jeito diferente. É um calçadão cheio de turistas e lojinhas e cafés, que começa no Rossio e termina num arco triunfal lindão. Eu subi e desci a Augusta muitas vezes na semana em que fiquei lá. 

O arco triunfal da Rua Augusta emoldurando Dom José I

O arco triunfal da Rua Augusta emoldurando Dom José I

Depois do arco tem uma praça, a Praça do Comercio, e logo depois o Tejo. Quando estive lá, a praça estava em obras – algo sobre saneamento básico e a limpeza do Tejo, se não me engano. Mas mesmo assim deu pra admirar as arcadas da praça e chegar até a beirinha do rio – e pra mim o Tejo é a alma de Lisboa, é emocionante estar às margens dele, não dá pra não lembrar de Pessoa. Tanto que eu me despedi de Lisboa às margens do Tejo, mas isso vocês veem mais pra frente.

Bom, siga andando. Eu peguei a Rua das Pedras Negras, e caminhando, caminhando, dei de cara com isso:

 

Para nascer, Portugal; para morrer, o mundo

«Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento, e tantas terras para a sepultura. Para nascer, pouca terra, para morrer, toda a terra; para nascer Portugal, para morrer o mundo» - Pe. Antonio Vieira

Me deu um misto de inveja com orgulho das minhas raízes portuguesas, meus olhos encheram de lágrimas (Lisboa me fisgou de um jeito que eu nunca pensei ser capaz de ser fisgada, então se quiserem, relativizem o que eu digo, eu me emocionava a cada espiadinha no Tejo, a cada esquina, a cada sotaque). 

Fiquei tão emo que nem me liguei que do outro lado estava a igreja de Santo Antonio. Yeah, baby, THE Santo Antonio, aquele casamenteiro, diz que nasceu ali em Portugal, e que foi batizado na igreja da Sé. “Mas Ligia, ele não é de Pádua?”. ARRÁ: Santo Antonio de Padua MORREU em Padua. Mas nasceu em Portugal. Para nascer, Portugal; para morrer, o mundo! Mas enfim, fiquei emo e perdi a oportunidade de ir pedir um maridex pro Santo, em linha direta. Acho que pedidos feitos lá são mais TRUE. Enfim, Santo Antonio, sigo solteira, se você tiver acesso à internet, der um google no seu nome e cair aqui, cá estou ;)

Mas tergiverso. O fato é que seguimos caminhando, caminhando, caminhando e chegamos à Sé de Lisboa, que é bem menor que a Sé de São Paulo, mas tem seu charme. Diz que lá estão os restos mortais de São Vicente. A gente deu uma espiadinha e… seguiu andando.

Nosso objetivo final, vou contar pra vocês, era chegar ao Castelo de São Jorge. Mas não sei se vocês sabem: o Castelo de São Jorge é o ponto mais alto da cidade de Lisboa. E a gente resolveu que ia à pé. Numa cidade já famosa por suas ladeiras, a gente resolveu ir ao ponto mais alto à pé. 

Daí você pode achar a gente maluca, e querer pegar um ônibus ou um bonde até lá em cima. E eu, apesar de ter sofrido bastante com a caminhada deste dia, insisto: vá à pé. Especialmente porque você pode ir pelo caminho que a gente foi: se perdendo pela Alfama.

 

Telhadinhos da Alfama

Telhadinhos da Alfama. E o Tejo. Não é LINDO?

Passear pela Alfama é o melhor jeito de saber como era a Lisboa pré-Terremoto, porque foi uma das áreas que foi menos destruída. Então as ruazinhas ainda são meio medievais, estreitas, sem espaço para carros, e cheias de casas daquelas que a gente vê em filme, com as roupas secando do lado de fora da janela.

Eu não sei se faz sentido na cabeça de mais alguém, mas a Alfama me lembrou um pouco o esquema das favelas cariocas. Ruelas estreitas, subidas intermináveis, escadões cortando caminho aqui e ali, e uma gente mais simples. Ele é (ou era, não sei) o bairro dos pescadores, e até hoje você sente um cheirinho de peixe – diz que os moradores colocam suas churrasqueirinhas para assar sardinhas na porta de casa – eu não vi, mas bem senti cheiro. É bom passear por lá, e inevitavelmente você vai encontrar velhinhos bem velhinhos subindo as ladeiras com suas bengalas. Eu estava ofegante e vi uma dessas velhinhas recusar a ajuda de uma menina de uns 13 anos que queria carregar as sacolinhas de compra dela: “eu ‘stou bem, m’deixe subir sozinha”. E lá foi ela. Enquanto eu quase morria de cansaço.

Bom, uma vez que você chega no fim da Alfama, eu recomendo dar uma parada no Miradouro de Santa Luzia para recuperar as energias.  De lá você tem uma vista sensacional do tejo e dos telhadinhos, e se der sorte pega uma boa musica na rua. Eu ainda vi uns meninos muito bonitinhos andando de skate.

 

Um fazia as manobras, o outro filmava. Vi essa cena umas 15 vezes

Um fazia as manobras, o outro filmava. Vi essa cena umas 15 vezes

Recuperou o fôlego? Siga subindo então. Não desanime, o Castelo está pertinho. Chegue até lá, pague o ingresso e divirta-se.

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4 Respostas to “Da Baixa à Sé, da Sé à Alfama, de Alfama…”

  1. armando Says:

    discordo quando diz que alfama lhe lembra as favelas cariocas sao ruas estreitas sim mas pode perfeitamente por la passar ser perigo algum mas favelas cariocar nem sequer e possivel la entrar

    alfama e realmente muito bonita toda a sua arquitectura de ruas estreitas a fazer lembrar cidades arabes so e pena o abandono a que estao os muitos predidos devolutos por incuria das varias presidencias camararias que deixaram chegar ao estado de abandono que se encontra mais preocupados estao com ridicularias onde gastam o dinheiro mal gasto talves com interresses papa alguns

  2. Carol Says:

    Essa frase do Pe. Antônio Vieira explica tanto…. sério, minhas raízes portuguesas também se inflaram aqui. Vou me apropriar com todo o respeito, tá?

    • Ligia Helena Says:

      Eu fiquei extremamente tocada quando li essa frase, fiquei uns minutos olhando pra esse muro (hahaha) e processando. Aproprie-se sim :)

  3. Robson Says:

    Olhando essas fotos, e lendo a sua descrição, dá pra sacar como os caras pensaram a arquitetura das cidades Brasileiras mais antigas. A diferença é que aí ficou boa parte preservada e aqui o “progresso” tomou conta.

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